O culto onde a criança não fique oculta

Uma reflexão sobre a participação da criança no culto cristão.

I - UMA EXPERIÊNCIA QUE SE REPETE

- "Eu nunca falei pra criança!" - dizia um pastor justificando a sua dificuldade em
falar para as crianças de sua Igreja.
- "Como nunca falou para as crianças se elas dominicalmente estão lá no culto?" -
alguém questiona.
- "É que eu nunca dei muita atenção pra elas! Eu ministro para os pais e adultos e
eles é que têm de repassar as coisas para seus filhos. Os professores das classes
infantis é que têm a tarefa de ensinar às crianças!" - tenta justificar-se.

II - A "INVISIBILIDADE" DAS CRIANÇAS NA HORA DO CULTO


Em muitas de nossas Igrejas locais, para muitos de nossos pastores(as) e liderança leiga a criança é "invisível". Todos sabemos que ela esta lá, mas não conseguimos vê-la, no sentido de sermos sensíveis e atentos para atendê-las. Geralmente nossos cultos são excludentes, pois em momento algum são preparados ou pensados para termos a participação das crianças neles. Geralmente as crianças não têm participação nenhuma no culto, exceto por vezes irem à frente para cantar uma ou duas músicas.

Mas elas dificilmente são chamadas para ler um texto bíblico, fazer uma oração, ler
uma poesia, recolher as ofertas, ajudar o Ministério da Recepção no acolhimento das pessoas que chegam para o culto. As músicas do culto são sempre canções para adultos, a pregação não é feita pensando em alcançar também as crianças, etc...

E isso certamente não é má vontade dos pastores(as) e das Igrejas, mas é um
comportamento que se repete há anos em nossas Igrejas, quase sempre refletindo o jeito que as crianças são tratadas em nossa sociedade ao não serem "percebidas", "levadas em conta" e "atendidas" em suas necessidades e na sua possibilidade de participar das coisas, dos processos de decisão.

O Bispo Paulo Ayres, pregando certa vez num culto distrital da mocidade metodista celebrado na década de 80 na Igreja Central de Duque de Caxias, escolheu o texto bíblico de 1 Samuel 17 onde o gigante Golias desafia os israelitas e onde é derrotado pelo jovem Davi, filho de Jessé. Falando sobre o trabalho da juventude na Igreja e em prol do Reino, lembrou que o mesmo Davi que não quis usar a armadura do rei Saul foi o mesmo que escolheu cinco pedras lisas para serem usadas na sua funda (laçada de couro ou corda para lançar pedras ou outros objetos a uma longa distância), ele destacou que embora muito jovem e sem a experiência dos treinados soldados do exército do Rei Saul e sem a experiência das pessoas mais adultas e mais vividas, Davi tinha a experiência de um jovem da sua idade, tinha a experiência de um pastor de ovelhas que tinha, digamos, seus dezessete ou dezoito anos de idade."Nossas experiências certamente são diferentes, mas todos temos alguma experiência.
Experiência que pode ser levada em conta e partilhada", disse o Bispo.

As crianças, portanto, não têm a compreensão e a experiência das pessoas adultas, mas elas têm compreensão e experiência próprias de uma criança de 4, 5, 6, 10 ou 12 anos, e essa experiência precisa ser reconhecida, valorizada e discipulada, ou seja,tornada parte da vida da Igreja através da participação da Criança. Criança que não participa não se sente parte. Criança que não aprende a participar vai crescer sem saber participar coletivamente e muito possivelmente vai ser uma pessoa que repete a exclusão das crianças do processo de participação na Igreja, na família, etc... E quem não aprende a participar (fazer junto) dificilmente será alguém que saiba trabalhar em equipe.

Assim, a participação das crianças na Igreja, e particularmente no culto, é um tipo de educação onde a criança aprende a ter uma participação correta e alegre, onde a criança aprende a ter responsabilidades e prazer com o culto e com as coisas da Igreja e de Deus, onde a criança aprende muito mais sobre a relação com Deus e sobre o grande amor de Deus. Falar do grande amor de Deus e excluir a criança do culto são coisas contraditórias, incompatíveis.

E lembramos, a exclusão não precisa ser a física (quando as crianças se reúnem noutra sala), mas a exclusão pela "invisibilidade" (não ser notada, não ter participação). Ela certamente não compreende nada, sente que o culto é grande e chato e vai preferir ficar brincando no pátio da Igreja, correndo pelo templo ou simplesmente desenhando ou fazendo qualquer outra atividade dentro do culto, como ficar desenhando, jogando algum joguinho eletrônico, etc...

III - O DESAFIO DE MUDAR A VISÃO, CURAR A PRÁTICA CEGA E ENXERGAR A CRIANÇA

O livro de Êxodo conta a libertação dos israelitas depois de 400 anos no Egito, quando passaram a maior parte desse tempo escravizados. No capítulo 17 os israelitas que estavam atravessando o deserto param para descansar. Há uma murmuração tremenda porque em Redifim, onde acamparam para descansar não havia um oásis. As pessoas cansadas pela longa caminhada e angustiadas pelo que faltava caminhar naquele longo deserto, sentem falta da falsa segurança do Egito, da escravidão promovida pelo Faraó que acabara de assassinar seus filhos. Também no capítulo 32 quando Moisés passa 40 dias no alto do Monte Sinai, o povo faz um bezerro de outro e novamente sente saudade da falsa segurança do Egito. A liberdade implica num duro caminho...

Manter-se realmente livre implica em oração e numa vigilância constantes. E ao falarmos aqui do culto da Igreja com a participação das crianças, estamos falando de sair dessa forma que exclui a criança para um culto que inclui a criança. É preciso mudança, coragem pra mudar, perseverança para aprender um novo jeito de ser pastor(a), de ser igreja e de celebrar nosso culto onde as crianças são incluídas.

Outro dia vi um pastor(a) pregando e tentando sinceramente falar para alcançar as crianças. Ele falava ainda numa linguagem bem rebuscada e de vez em quando ele olhava para as crianças e perguntava: "né crianças?". Noutro momento dizia: "Isso é para vocês crianças!" e procurava traduzir o que tinha tido nos últimos 5 minutos da pregação numa linguagem mais curta e compreensível às crianças. Fui parabenizá-lo.

Ele ainda estava longe do que nós precisamos e do que é desejável, mas pelo menos tinha se sentido desafiado a mudar para incluir as crianças. Ele ainda não tinha "aprendido" a falar para os adultos e crianças juntos, mas ele estava se expondo, estava tentando, estava aprendendo. E esse tipo de aprendizado só acontece quando fazemos. Falar para as crianças é igual a aprender andar de bicicleta: não existe aprendizado teórico.

Só se aprende enquanto pratica. Sugeri que sua pregação nesse dia quando as crianças estavam reunidas com os adultos para o culto ao Senhor que ele (o pastor) fizesse um sermão mais curto, que não se preocupasse em "contar a história do cristianismo" (tentar falar de tudo que está na Bíblia, de todas as doutrinas, querer pregar naquele sermão tudo o que a Igreja deve aprender!), que
escolhesse uma história ou uma música de crianças ou ilustrações no retro-projetor para enriquecer e/ou ilustrar a pregação e que tomasse muito cuidado para não usar palavras difíceis e falasse de modo coloquial, bem informal.

O culto também deveria ser pequeno e ter maior participação das crianças. Os pais e filhos poderiam ser chamados para ajudar na hora da ministração da Ceia. Uma família de cada lado, mesmo que seja uma família de 7 pessoas para segurar a bandeja com os cálices da ceia e a patena (bandeja) com o pão. Não precisa que todos tenham bandeja nem de todos segurarem uma única bandeja. O importante é estarem ali enquanto família com adultos e crianças.

IV - O MATERIAL PRODUZIDO NA OFICINA DE LITURGIA:

1 - Sobre os "modelos" de participação da criança no culto com os demais membros da Igreja e algumas questões para se avaliar e se superar:

1.a) As crianças no templo com os adultos:

A participação da criança se dá através de coreografias, utilizando na maioria das vezes músicas de adultos, por não se divulgar e/ou trabalhar músicas infantis. Em algumas igrejas, o culto do 5. Domingo tem ficado reservado para criança, sendo dirigido na maioria das vezes por professores e quando a criança participa é utilizada em momentos específicos como: leituras bíblicas, oração e cântico especial (coral/solo). Vale ressaltar que mesmo sendo um domingo separado para a participação da criança, ela não tem acesso a preparação da liturgia, do programa do culto. No chamado "momento do louvor", sua participação resume-se em apenas apoiar o "Ministério do louvor" em pequenos atos. Outras vezes a participação ocorre através de dramatizações e/ou em datas especiais que acabam se tornando num verdadeiro "show" do que uma celebração a Deus.

Encontramos também algumas igrejas, que estão se valendo das "crianças pródigos" (que se destaca por habilidades especiais, diferentes da maioria das outras crianças) para "ministrarem" a palavra, realizando capacitações específicas,
levando-as a serem meras repetidoras de termos, posturas e outros dos adultos.

1.b) As crianças no "cultinho" ou no "culto infantil"

Constatamos que na maioria das igrejas as crianças ficam no templo até o louvor e logo após saem para participarem do "cultinho", onde são realizadas atividades como: brincadeiras, ensaios, reprodução de vídeo (evangélicos ou não).
Também encontramos igrejas em que as crianças nem entram no templo, ficando excluídas do momento de congregar para prestar culto ao nosso Deus. Às vezes esquecemos que é importante a real participação da criança e acabamos dirigindo todo o culto.

1.c) A criança e a Ceia do Senhor
Em muitas igrejas a ministração da Ceia para as criança é feita separadamente, sendo ministrada pelo pastor(a) ou leigo. Em outras a participação ocorre no templo junto com os adultos desde que sejam orientadas pelos professores e familiares sobre o significado do sacramento. Em algumas situações elas não participam da Ceia por dois motivos: por não serem membros da Igreja ou simplesmente por serem impedidas e/ou não autorizadas pelo pastor(a).

Também ocorre a substituição da ceia pela festa do amor e em alguns casos encontramos a utilização de apenas um dos elementos da ceia: ministra-se o pão à criança, deixando de servir o vinho (suco de uva!) às crianças. Alguns pastores(as) estipulam idade mínima para que a ceia possa ser servida.

2 - Sobre o problema com o uso de alguns termos/palavras/expressões:
2.a) O que é culto?
É a reunião para adoração a Deus e celebração da fé da comunidade, que atualiza a memória da ação salvadora de Cristo em favor do povo no passado e no presente, e onde ocorre instrução para as crianças, assim como para os adultos (Dt. 6.7).

No A.T. a instrução era passada de geração em geração conforme Deuteronômio 6.No N.T. a comunidade se reunia para o ensino dos apóstolos, a comunhão, o partir do pão e orações nas casas com toda a família. (At. 2:42-47)

2.b) Por que culto com crianças?

Porque "as crianças são 'agentes mirins' da Missão e, como herdeiras do Reino e parte do povo de Deus, têm o direito de serem educadas na Palavra e no Amor de Deus, de louvá-lo e cultuá-lo, de participar na celebração cúltica."

O termo 'culto infantil' tem em nossa sociedade sentido pejorativo, que diminui a importância da participação da criança, e exclui o envolvimento do adulto no processo.

Da mesma forma, entendemos que o termo 'cultinho' é extremamente errado e não tem razão de ser utilizado.

Sugestão do grupo:
a) que se estude o nome mais adequado para o culto das crianças.1: a utilização do termo Culto com Crianças.
b) que o pastor(a) possa participar e ministrar às crianças nos seus cultos;
c) que haja um espaço físico adequado, material e recursos apropriados ao culto que as crianças darão ao Senhor.

2.c) A Criança.
É a pessoa que está em processo de crescimento físico, emocional, psíquico, que vai do nascimento até a puberdade. Sugere-se que, para fins de participação no culto para crianças, sejam consideradas especialmente as crianças de 4 a 11 anos. Entendemos que as crianças de 0 a 3 anos devem estar sob os cuidados dos pais.

3) A participação das crianças no culto com os demais da igreja e a importância de uma linguagem apropriada do culto com crianças.

Considerando que hoje se utiliza o culto como espaço para manifestação das múltiplas funções da Igreja, em grande parte desses momentos, a linguagem é inapropriada para atender as necessidades específicas da criança.

Por isso, percebe-se a tendência de separar a criança do culto realizado no templo quando o ideal seria a reformulação da celebração cúltica a fim de que a criança pudesse sempre ser incluída neste momento da vida da Igreja. Mas, tendo em vista a dificuldade de romper com esse modelo, pensamos em algumas alternativas possíveis para implementação de uma linguagem que atenda simultaneamente a adultos e crianças da comunidade de fé.

Percebemos a necessidade da utilização de uma linguagem que exprima de forma simples e concreta a verdade do evangelho; que explore além do verbal o uso dos outros sentidos corporais; e que considere em seu conteúdo as questões infantis, tanto no nível do desejo quanto no que é necessário ser ensinado.

Para isso, é preciso que além das pessoas que trabalham diretamente com as crianças; pastores e lideranças recebam orientação quanto ao uso de uma linguagem mais adequada ao universo infantil e que além da palavra, invista-se em outras formas de comunicação em que estejam presentes o uso de outros sentidos - olfato, tato, paladar e visão (linguagem multi-sensorial), que possibilite o diálogo, e contemple a dimensão racional e espiritual de seus participantes.

Trabalhando no resgate da ordem litúrgica, e pensando na criança como sujeito que integra a comunidade, faz-se necessário marcar tais momentos de forma significativa - história, símbolos, cânticos, recursos visuais, etc. - redimensionando o corpo como instrumento de adoração, confissão, louvor, edificação e dedicação."

Ao tornar o culto uma expressão de fé significativa para a criança, desejamos que seja perceptível a ela o desafio de ampliar sua relação com Deus para os outrosespaços de sua vivência, provocando mudanças de atitude, reflexão, prática de fé,crescendo no corpo de Cristo que é a Igreja, e com ela.

V - CONCLUSÃO


Ainda há muito caminho para trilharmos. Mas estamos orando e trabalhando. Com certeza a resposta do Senhor virá. Não apenas para as crianças e para as pessoas que trabalham com crianças, mas também para toda a Igreja, inclusive seus pastores e pastoras. Até lá, precisamos perseverar, orando e trabalhando, sensibilizando e não deixando que as dificuldades nos calem, nos desanimem, nos tornem acomodados e amargurados. Creio que a Obra é de Deus. Ele pelejará por nós. Pela causa da criança. Que certamente é também causa do Evangelho, causa de Deus.

Que nossas crianças possam ser aceitas e reconhecidas como chamadas pelo amor e pela graça de Deus. Que possam ser aceitas e reconhecidas na resposta de gratidão e amor que a Igreja presta com seu culto ao Senhor. Que as crianças possam ser aceitas e reconhecidas como parte da Igreja do Senhor Jesus, cidadãs do Reino e "Agentes Mirim" da Missão de Deus no sentido de salvar o mundo.

Que o Deus misericordioso seja conosco! Aleluia!

Preletor: Pastor Ronan Boechat - Igreja Metodista

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